domingo, 23 de novembro de 2014

EMILIA NA EMBALAGEM 01



passam
por mim
e fingem
não me ver
adormecida
ao som
de cantigas
e fugindo
a imitação
taxativa
dos possíveis
encontros
com as bulas
de tarjas
e cores
seguidas
pela moda 

esquecida
feito brinquedo
por criança crescida
passam por mim
e fingem
não me ver
mulher adulta
nesta caixa
que estou
e sou
embalada,
embrulhada,
adormecida
e guardada


nesta caixa
de farmácia
em que estou
sou mais uma
oferta perdida
entre os remédios  
com suas estatísticas
a proporcionar um corpo
amarelado,
impulsionado
e acelerado
em códigos
diagnósticos


sobrevivendo
aos devaneios
da interpretação
impondo
e decidindo
o que é normal
e o que é bem estar
e assim vou vivendo
cercada

por esses
acostumados
a repetir
respostas prontas
sem o desejo
em ouvir
os próprios
impulsos
químicos  
repetindo
uns aos outros
suas angustias 

que estou drogada
anestesiada
e fugindo
a realidade
construída
moldada
e bordada
em cores
que não aceitam
o que será que desejam de alguém que vive em uma farmácia?


Não passam de DSM oralistas!
Serotonina?
Dopamina?
Noradrenalina?

Como uma pessoa se torna quem ela é?

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